Rapidamente, comentou-se que o novo formato - o uso maciço de computação gráfica nos cenários e estilização dos gráficos - seria a saída para os épicos. Não foi. Nunnari e Canton não conseguiram emplacar mais nada depois de 300, apesar das diversas ameaças de retorno de um dos gêneros históricamente mais populares do cinema. Quatro anos se passaram até que um novo projeto nessa mesma linha estreasse, pelas suas mãos. Imortais (Immortals, 2011), dirigido por Tarsem Singh, porém, sofre com as comparações a 300.
Os dois filmes dividem o apreço aos clichês do gênero, claro, além de uma ou outra cena de câmera lenta que parece ter sido imposição dos produtores. Singh, porém, é muito mais atento aos detalhes que Snyder - ainda que menos dotado daquela empolgação "de macho". O diretor indiano floreia seu filme com belos figurinos, exageradíssimos, com adereços de cabeça de fazer inveja a carnavalesco carioca, e situa tudo isso em ambientes exóticos, que misturam o gosto pela arquitetura e pela decoração inusitadas. Os adornos têm uma funcionalidade sádica, algo que já fora notado em A Cela, que vale a visita... cada canto do filme, especialmente os que dizem respeito ao Rei Hipérion (Mickey Rourke, à vontade entre torturadores, frutas e escravas), é repleto de pequenas histórias visuais. O touro dourado, por exemplo, nem precisava ser aberto para ser compreendido.
Se Zack Snyder é fetichista em sua direção de arte, o mesmo pode-se dizer de Singh, mas as influências de ambos os diretores são diametralmente opostas. Os fetiches do indiano, que também aprecia a estética da violência estilizada, são muito mais hollywoodianos que ocidentais, daí os brilhos, tecidos e arranjos. Até no uso da câmera os dois são parecidos, mas opostos. Enquanto Snyder usa o recurso para evidenciar a brutalidade do impacto e o feito heroico, Singh valoriza o movimento, a coreografia - outro traço cultural aprendido em seu berço. E tudo isso, a construção de cenários, os figurinos, o balé, fica ainda mais interessante em 3D. A volumetria é um bônus aqui.
Dramaticamente, porém, Imortais é bastante superficial. Pega pedaços da mitologia grega e os distorce, de maneira sisuda demais, para contar a história de Teseu (Henry Cavill), um bastardo que precisa tornar-se um líder, auxiliado por uma sacerdotisa do oráculo (Freida Pinto), para repelir um exército invasor. As forças do Rei Hipérion, em busca do mítico Arco de Épiro, pretendem vingar-se dos deuses, libertando a raça dos Titãs e deflagrando a guerra entre os imortais do título.
Cavill não segura a reponsabilidade e parece pouco entregue ao papel, seu primeiro de destaque no cinema depois de uma ótima participação na série The Tudors. O protagonista simplesmente não convence como o pobretão que sofre preconceito (inspirada no problema de castas da Índia; essa é a maior deturpação do mito, em que Teseu era príncipe) e que se torna um guerreiro carismático da noite para o dia. O elenco de apoio também não ajuda. Stephen Dorff salva-se como pode, Frieda faz adorável cara de preocupada e John Hurt (Hellboy) atua no automático, mas o núcleo de deuses-cool é o mais difícil de assistir. Isabel Lucas (Transformers 2), Kellan Lutz (Crepúsculo), Luke Evans (Fúria de Titãs) e Peter Stebbins parecem mais posando para o calendário "Olimpo 2012" do que efetivamente gerando algum drama lá no alto do monte.
O esteta Singh ainda precisa dar mais humanidade ao seu cinema - e isso não é obtido de maneira simplista, transformando príncipes em bastardos. Sem ela, espetáculos como o de Imortais não se sustentam.
Um filme que classifico com...


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