Xingu | Crítica



Em 2011, o Parque do Xingu, a primeira terra indígena homologada pelo governo brasileiro, completou 50 anos. Meio século passou e o País do Futuro ainda continua lidando com grileiros, desmatamento e a paralisia da velha discussão: preservar a floresta ou abrir espaço para o crescimento econômico?

Fica a impressão de que não avançamos muito, no entendimento da questão amazônica, nesses anos que separam Transamazônica e Belo Monte. Nesse ponto, embora seja um filme didático e básico em sua defesa da cultura indígena, Xingu não deixa de ser atual.

O filme dirigido por Cao Hamburger (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) conta, com algumas licenças, a história da expedição pelo Rio Xingu dos irmãos Villas-Bôas, os mais importantes indigenistas do país, responsáveis pela criação do Parque. No filme, os três são dispostos como uma gradação: numa ponta, o mais velho, Orlando (Felipe Camargo), faz o papel político pragmático; na outra, o caçula Leonardo (Caio Blat) representa a entrega emocional, a evidência de que é impossível se aproximar dos índios sem transformá-los (e transformar-se).


Não por acaso, o protagonista do filme é o irmão do meio, Cláudio (João Miguel), o desbravador. É ele quem mais sente o peso das duas responsabilidades, a pública (a promessa de uma terra demarcada para os índios) e a privada (o esforço utópico de impedir a aculturação, de não se envolver). João Miguel reage bem ao peso do papel, e a sua interpretação é o forte de Xingu, um filme cuja plasticidade tenderia a esvaziar a figura dos atores.

Ao mesmo tempo, é difícil esquecer que obras recentes como Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, eHabitante Irreal, de Paulo Scott, por exemplo, tratam de forma muito mais complexa essas questões de trocas de identidade entre o branco e o índio. Xingu só as toca transversalmente. É uma biografia meio chapa-branca que flerta com essa complexidade (nos dilemas de Cláudio), mas que termina simplificando coadjuvantes (o fazendeiro mau, o político negociador) e resgatando a velha ideia do Bom Selvagem, como se Hamburger atendesse a uma urgência de reorganizá-los do zero, como se o hoje histórico pedisse uma reintrodução à nossa história.

Mas será que pede mesmo? Ou a discussão já deveria estar em outro degrau?

Um filme que classifico com...


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